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O Duplo de Saramago

Teria sido Adão o primeiro a ver sua imagem em algum lago de água cristalina e perceber que sua face estava duplicada no reflexo? Na verdade, Adão já era um Duplo, a ‘imagem e semelhança’ do seu criador. Presente na primeira história sobre a origem do homem, segundo o Cristianismo, a figura do Duplo sempre rondou a mente humana em todas as civilizações e serviu de inspiração para incontáveis fábulas, histórias entre outras expressões artísticas.

Quando a literatura, o cinema, a música ou a psicanálise tratam dos seres idênticos, os sentimentos despertados são geralmente perturbadores, mexendo com diversas  aspirações humanas e análises que chagam até o questionamento sobre a existência, consciência e continuidade da vida em outro ser.

Em seu ensaio “O duplo na literatura: reflexão psicanalítica”, Nájla Assy aponta para autores e obras que através dos tempos utilizaram a figura do Duplo, os quais datam desde sempre. Mahabharata (século IV-V a.C.) livro sagrado da Índia, Shakespeare, Oscar Wilde, H. G. Wells, Robert Louis Stevenson criador de uma do mais famosos casos da literatura “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde” ou mais conhecido como “O Médico e o Monstro”, são alguns exemplos.

Sobre o duplo, Carla Cunha observa seus possíveis significados, segundo Sigmund Freud (1919):

Freud, no seu texto datado de 1919, Das Unheimliche, afirma que o DUPLO, apesar de nos parecer algo de estrangeiro, estranho a nós-mesmos, sempre nos acompanhou desde os tempos primordiais do funcionamento psíquico, estando sempre pronto a ressurgir e provocando-nos uma sensação de inquietante […]. Nesta perspectiva, o DUPLO assume importante papel de mediador entre duas entidades que não são mais que uma. Contudo, de elemento estruturador, que contraria a pulsão da morte, surgindo como um vestígio do Narcisismo primário […].

Tertuliano Máximo Afonso, um pacato professor de história, cuja a vida não seria nota nem de jornal de bairro, tem sua paz quase ‘solitária’ perturbada após assistir um filme onde, um ser exatamente igual a ele, aparece num papel secundário. Atormentado por saber que um outro caminha pela face da terra com a sua cara, não poupa esforços para encontrá-lo e matar sua ansiedade incontrolável devido o fato desta incomum duplicidade física. Não se tratam de gêmeos separados no nascimento, mas sim de dois homens fisicamente iguais, até a voz é exatamente a mesma.

Este é uma pequena sinopse da visão do Duplo que Saramago colou em seu livro “O Homem Duplicado” (2002). Quem já teve o prazer de ler alguma obra deste renomado escritor português sabe que a pontuação de seus textos difere de quase todos os outros escritores que nossa língua mãe já proporcionou. Nunca permitiu que sua obra fosse ‘adaptada’ para o chamado ‘português brasileiro’, o que permite uma leitura ainda mais curiosa por termos e expressões. Aliás, um dos pontos altos desta obra, é justamente a quantidade de ditos populares colocados a prova e expostos pelas personagens e pelo próprio narrador. Este brinca em algumas partes com os pequenos jogos narrativos, demonstrando ao leitor algumas artimanhas literárias para se chegar a alguma idéia proposta no texto. As metáforas criadas por ele, não só neste livro, como em várias de suas obras, são para mim as principais virtudes de Saramago, com destaque para “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995).

Seria demasiado presunçoso da minha parte, tentar traçar as incontáveis características e particularidades dos textos deste Nobel de Literatura, o que posso expor aqui é o fator humanizado dos personagens que rodeiam a questão do Duplo nesta obra. Como qualquer tema curioso, ‘duplicado’ e repetido através da história e que rende até mote para novela(s) global, cair nas armadilhas de clichês para um escritor comum seria muito fácil. Saramago expõe as qualidades humanas (leia-se também defeitos), quando certos fatos inusitados são colocados em meio a homens e mulheres comuns, com seus medos e desejos. O acontecimento por si só já é bizarro, assim como muitas propostas de outros livros dele, por exemplo: “A Jangada de Pedra”, onde a Península Ibérica se desprende do continente europeu e vaga aparentemente a deriva pelo Oceano Atlântico, ou mesmo quando em um país, sem nenhuma explicação, ninguém mais morre no hilário “Intermitências da Morte”.

Indecisos, impulsivos, medrosos, infantis, espertos, apaixonados, invejosos, rancorosos, vingativos, melancólicos, estúpidos, os poucos personagens de “O Homem Duplicado” são demasiadamente humanos. O autor coloca até o dito “senso comum” como um duplo na mente do personagem principal, discutindo suas atitudes e demonstrando um conflito interno de Tertuliano.

O egoísmo aflorado pela existência da possível “cópia”, demonstra um dos paradoxos humanos, a necessidade de viver com seus pares, desde que mantenha sua ‘individualidade’, ou seja, precisa viver em comunidade, mas sente a necessidade de ser único.

Nem sempre as páginas de Saramago são de fácil fluidez para um leitor menos atento, tanto pela forma de escrita como pelos caminhos tortuosos, e até pelos pensamentos aleatórios que personagens e narrador percorrem muitas vezes, extrapolando o plano do enredo principal e muitas vezes “divagando” sobre questões de infinitas particularidades. Para ilustrar isto, em determinado trecho, após uma conversa de Tertuliano com sua mãe, ele relembra uma frase dela: “Não sabemos tudo o que nos espera para além de cada acção nossa, havia dito a mãe, e esta verdade corriqueira, ao alcance de uma simples dona de casa de província (…)” em seguida Máximo Afonso conclui “Cada segundo que se passa é como uma porta que se abre para deixar entrar o que ainda não sucedeu, isso a que damos o nome futuro, porém, desafiando a contradição com o que acabou de ser dito, talvez a ideia correta seja a de que o futuro é somente um imenso vazio, a de que o futuro não é mais que o tempo de que o eterno presente se alimenta.” Pensamento profundo, que permite reflexão e discussão, mas de certa forma aleatório ao enredo principal da trama.

Confesso que a primeira metade desta obra foi até cansativa, pelo esforço de concentração, mas quando as personagens finalmente atingem o ponto de encontro, o que inicialmente era apenas idéias sobre o assunto, muda para acontecimentos sempre curiosos e surpreendentes, e o melhor desfecho de todos os livros que tive oportunidade de ler até agora de José Saramago.

O Duplo: Cinema, alguns clipes de Gondry e um pouco de Surrealismo

Não só pelo número de obras da literatura, mas também pelos filmes, e outras ferramentas de expressão, seria possível escrever uma ‘bíblia’ sobre os trabalhos que abordam o tema do duplo. Seguindo a linha da psicanálise de Freud, que influenciou o Surrealismo, em “A Metamorfose de Narciso”, de 1937, Salvador Dalí tentou recriar as condições do inconsciente pintando o mito de Narciso.

Em alguns videoclipes dirigidos por Michel Gondry, um dos melhores diretores da atualidade na minha opinião, e que livremente bebe na mesma fonte dos surrealistas, a presença do duplo é marcante, como em “Let Forever Be” (1999) da banda Chemical Brothers ou no impactante “Come Into My World” da cantora Kylie Minogue, só para citar alguns exemplos.

Como mostras recentes no cinema que falam do Duplo, podemos citar “O Sexto Dia” (The Sixth Day, 2000), aborda o tema da clonagem e toca na questão Freudiana da tentativa de vencer a morte através do duplo. Semelhante, mas com elenco mais convincente, “A Ilha” (The Island, 2005)  de Michel Bay (acredito que este seja o ponto alto em toda sua cronologia como diretor) tem Ewan McGregor e Scarlett Johansson na pele de clones criados somente para fornecer órgãos para ‘seus originais’. Temos “O Homem Duplo” (A Scanner Darkly, 2006) animação baseada em atuações reais de Keanu Reeves, Robert Downey Jr. e Winona Ryder, onde policiais vivem infiltrados no cambate as drogas, assim como o próprio “Os Infiltrados” (The Departed, 2006) de Martin Scorsese , mas que a questão do Duplo é tratado em um ‘grau’ menor. Tratando do assunto de uma maneira diferente, “Clube da Luta” (Fight Club, 1999), o personagem Jack (Edward Norton), sofre de distúrbios de dupla personalidade, na forma de Tyler Durden (Brad Pitt).

Até os quadrinhos nos fornece personagens marcantes que vivem ‘o conflito’ do duplo em sua trajetória, Hulk talvez seja o maior representante, aparentemente inspirado em “O Médico e o Mostro” já citado aqui. Quem não se recorda do desenho “Liga da Justiça” onde existia uma dimensão onde as personalidades dos personagens eram opostas aos originais. A própria essência dos super heróis, que possuem uma vida dupla, sempre entre a identidade secreta e a imagem pública.

Para finalizar, podemos voltar ao cinema e citar um trecho de “A.I. Inteligência Artificial” (A.I., 2001) quando David (Haley Joel Osment), se depara com outro robô igual a ele, e acaba destruindo-o gritando que ele era único e que não poderia existir outro ‘David’.

Pra não dizer que não falei das flores, o duplo está presente no consciente ou inconscientemente de todos. Olhar-se no espelho e ver a própria imagem todos os dias, já é uma experiência do duplo e pode trazer a questão de “Como seria ver a si próprio por outro ponto de vista?”. Ou mesmo questionar a ‘existência’ e a necessidade de ser único, como a marca da própria digital. A questão de ‘pais e filhos’, ‘mestres e aprendizes’, podem representar aspectos do duplo e a tentativa, segundo Freud, de vencer a maior certeza de todas, a própria morte.

Obs. 1: Agradeço muito a Edimaldia Ferreira, que me apresentou o texto de Carla Cunha sobre os significados do Duplo na época do TCC da Pós, e foi fundamental na construção dos argumentos daquele trabalho.

Obs. 2: Posso ter deixado de lado alguma obra de fundamental relevância sobre o Duplo na história, peço ajuda de todos que contribuam com indicações, comentários e observações sobre o tema.

#por Jonas Ribeiro#

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Publicado por em março 22, 2010 em All Posts

 

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“(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love & Understanding”

Inaugurando a sessão “Achei Isso em um Filme”, a música de Elvis Costello, “(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love & Understanding”. Há tempos passa pela minha cabeça escrever sobre músicas, bandas, lugares, escritores, livros, comidas, etc, que conheci vendo filmes. Afinal, muitas vezes ouvimos uma trilha, ou vamos atrás do autor do livro que inspirou ou é citado no filme, ou até um prato diferente de uma culinária de outro país. As referência agregam muito valor a qualquer obra, e rastreá-las sempre traz bons frutos para mentes mais atentas e curiosas.

Existem determinados filmes, quando assistimos pela primeira vez, percebemos que provavelmente é daqueles ‘atemporais’, ou um ‘novo-clássico’, e se daqui a 20 anos você parar para assisti-lo, sentirá muito confortável fazendo isso. Não que “Encontros e Desencontros” (Lost in Translation), seja algo tão extraordinário, para muitos é até um filme ‘parado demais’. Mas sua relevância destaca-se por trazer em ótima forma, o na época esquecido, Bill Murray. Não conheço todos os seus filmes, mas com certeza esse é um ponto alto em seu currículo. Podemos listar o Oscar de melhor roteiro para também diretora Sofia Coppola, e o primeiro grande sucesso de ninguém mais que Scarlett Johansson, exibindo toda sua sensualidade quase juvenil, sem muito esforço.

Existem várias passagens marcantes em “Encontros e Desencontros”, mas eu aponto aqui duas cenas onde as músicas foram utilizadas magistralmente. Apesar de ter ouvido uma ou outra coisa de Elvis Costello, nunca fora me apresentada a música “(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love & Understanding”. Na cena do Karaokê, quando Bill Murray a canta, além de “More Than this” (música original de Bryan Ferry e sua banda “Roxy Music”, regravada por “10.000 Maniacs”), fiquei muito curioso, pois além de muito engraçada a forma que Bill solta sua voz, a música soava forte e cheia de energia. Para quem não conhece Elvis Costello, ele começou sua carreira junto com o movimento punk na metade dos anos 70, percorreu a new wave, soul, country entre outros estilos, foi parceiro de Paul MacCartney no final dos anos 80 e casou-se com a cantora Diana Krall em 2003. Já concorreu ao Oscar de melhor canção, além de ser a voz que interpreta “She”, tema de “Um Lugar Chamado Notting Hill” (Notting Hill, 1999).

A outra é o encontro final entre Scarlett e Bill, “Just Like Honey” da banda Jesus and the Mary Chain, preenche totalmente os espaços (se você começar a contar as batidas desde o início da cena, elas sincronizam quando a música começa), criando um desfecho ‘cult’ e ‘ melancólico’ para o filme.

Como nada é por acaso, e este mundo é muito pequeno, após trocar alguns vídeos desta música com meu irmão, eis que me deparo com uma apresentação ao vivo, onde Elvis Costello divide o palco com Jakob Dylan (filho do Bob e líder do The Wallflowers, depois descobri que eles já regravaram esta música), Jenny Lewis e ninguém mais do que Zooey Deschanel. Mas fica questão: Quem seria essa tal Zooey Deschanel? A estrela de “500 Dias com Ela” (500 Days of Summer, 2009). Além de atriz é cantora e possui uma dupla chamada “She & Him”, mas sobre isso só no prometido e atrasado post de “500”.

Infelizmente não encontrei a sequência completa onde Bob Harris (Bill Murray) desfila toda sua voz para Charlotte (Scarlett Johansson), mas na segunda metade do trailer tem a música de fundo e uma pequena amostra desta cena.

Abaixo a apresentação ao vivo da ‘superbanda’ de Elvis Costello, reparem como tem vários guitarristas, dois bateristas e principalmente um ‘passinho legal’ de Zooey e Jenny nos backing vocals.

Site oficial de Lost in Translation.

‘Para não dizer que não falei das flores’, eu não conheço muito a discografia do Elvis Costello, por isso nem poderia dizer que sou fã ou coisa parecida. Mas esta música em especial, acho muito divertida e todas as versões que encontrei são excelentes.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em novembro 23, 2009 em All Posts, Coisas de Filme

 

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