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O Melhor X da Questão

Quem nunca se sentiu diferente? Por um nariz, uma orelha, por ser magro, gordo, pobre, rico, negro, amarelo ou azul? A simples diferença infelizmente gera muitas vezes estranhamento, medo, revolta, segregação, preconceito entre outros efeitos colaterais. Talvez um dos maiores paradoxos da humanidade, pois sabemos que somos iguais e ao mesmo tempo somos únicos, com virtudes e defeitos que nos diferenciam de todos os outros, o problema é quando alguns se acham mais iguais que os outros.

Apesar de algumas vezes as adaptações de quadrinhos conseguirem sequências melhores que os filmes iniciais das séries – caso de “Cavaleiro das Trevas”  (The Dark Knight, 2008) e o próprio “X-Men 2″(2003) de Bryan Singer – sempre que uma continuação é lançada, existe o temor de que algo ruim e puramente comercial está por vir. Tanto que “X-Men 3: O Confronto Final”, aparentemente finalizava a franquia de forma decepcionante, sem Singer e sem brilho.

Mas a trilogia como um todo foi um sucesso, por isso o elenco ficou encarecido por estrelas, resultando na dificuldade em manter o universo utilizando o mesmo elenco – além de do terceiro filme eliminar parte dos principais personagens.  Para dar continuidade a ‘galinha de mutantes de ouro’ , inciou-se uma série de novos títulos.  Wolverine, quase unânime entre os fãs como o personagem mais carismático, ganhou um capitulo fraco sobre sua origem e fez muitos se decepcionarem. Mas “X-Men: Primeira Classe” (X-Men: First Class, 2011) de Matthew Vaughn (diretor do ‘redondo’ e bem construído “Stardust”, 2007) supreende por ser o melhor da franquia até aqui.

Como no ultimo filme do homem-morcego, esta primeira classe ganha pelo ótimo roteiro, que explora muito bem a questão complexa da diferença e do preconceito (tema principal do universo X e muito debatido pela sociedade atual). A construção das histórias de Charles Xavier (James McAvoy) e de Erik Lehnsherr (Michael Fassbender), futuro Magneto, são a base bem estruturada de toda linha narrativa, que utiliza acertadamente acontecimentos históricos reais (II Guerra Mundial e Crise dos misseis entre EUA e URSS nos anos 60), dando um tom ainda mais verossímil para os personagens, que apesar dos poderes mutantes, sofrem psicologicamente e socialmente por não serem considerados normais. Respeitando a trilogia já existente,  as origens distintas dos futuros líderes mutantes justificam suas ações dentro desta trama e dos filmes anteriores que se passam décadas depois. Também convincentes estão Kevin Bacon como o vilão Sebastian Shaw e Jennifer Lawrence (Raven Darkholme / Mística), que é a melhor personificação da questão mutante de aceitação, tanto da sociedade como dela e sua própria natureza.

A grande diferença deste ‘First Class’ é se distanciar do show pirotécnico de computação gráfica que existe em alguns filmes do genero – que se assemelham mais a linguagem de Games dos que de quadrinhos  – e se preocupa em contar um boa história. Os 132 minutos são talhados com pequenos conflitos, onde cada mutante encara de uma forma, tanto a sua mutação, como a escolha do ‘lado’ para lutar em meio a muitas tensões sociais e politicas.

Outro trunfo deste “X-Men” é mostrar claramente que apesar de diferentes, os mutantes são humanos, com qualidades, defeitos, desejos e principalmente são mortais. Em nenhum momento a sensação de conforto existe. O humor dosado na medida certa para aliviar a trama, sem exageros – aliás, outras franquias se perdem tentando agradar ao público adolescente carregando em humor e pirotecnia, abdicando de uma trama mais complexa.

O desfecho mantém o ritmo, justifica aspectos do universo X da franquia, e surpreende quem desconhece a história, por isso agrada aos fãs da primeira trilogia e aos espectadores casuais, possivelmente novos admiradores da escola para mutantes do Professor Xavier.

Pra não dizer que não falei das flores, meu modo de fazer uma crítica é analisando não apenas a obra em si, mas observando o meio, tempo e ao que se propõe a obra analisada. Não teria como fazer uma analise baseada nos quadrinhos da Marvel (isso eu deixo para meu amigo Diego M. Gomes que é especialista e mestre na arte e no universo X-Men), por isso esta humilde análise foi realizada em cima do filme como cinema e nas obras, tanto da franquia, como outras do mesmo gênero.

por Jonas Ribeiro

 
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Publicado por em junho 12, 2011 em All Posts, Coisas de Filme

 

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Alice, What’s the Matter?

Alice é uma personagem diferenciada. No clássico literário de Lewis Carroll, foi criado um universo onírico, inspirado na ingenuidade de ações e pensamentos de crianças. Os personagens, cenários e acontecimentos são claramente reflexos de pessoas e situações reais, com seus apelos psicológicos, próprios da mente humana. Por isso, esta obra gerou incontáveis estudos, adaptações e inspirou gerações de artistas e pessoas comuns.

A Disney criou enorme expectativa, quando em meados de 2007, anunciou que iria adaptar novamente esta obra literária (já adaptado em 1951 pelo próprio estúdio). Além do fato de utilizar tecnologia 3D de ponta para projeção, as características da filmografia do diretor a frente do projeto de “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, 2010) não deixavam dúvidas sobre o resultado final. ‘Deixavam?’

Tim Burton é o tipo de diretor que assina tudo o que faz, sempre carregando ao seu lado sua equipe, que vai desde a dupla de atores Helena Bonham Carter (esposa de Burton) e Johnny Depp, ao figurino de Colleen Atwood, além da música sempre composta por Danny Elfman. Estes estavam presentes em filmes como o interessante e bizarro musical “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, 2007) e no clássico moderno “Edward Mãos de Tesoura” (Edward Scissorhands, 1990). Aliás, são justamente figurino e trilha que (além da direção de arte fantástica) dão o apelido para este filme: “Alice de Tim Burton”.

A sensação de imersão num mundo de fantasia, ampliado pela projeção 3D, é indiscutivelmente o ponto alto de “Alice”, o Gato de Cheshire é o personagem mais próximo ao literário e todas as suas aparições são magníficas. Tanto as vozes, o elenco digital, quanto os atores ‘reais’, foram muito bem desenhados e escolhidos, todos passam uma veracidade ao ambiente criado por Tim e sua equipe.

Mas fica a pergunta – Alice, qual é o problema? – Distante de duas refilmagens que, na minha humilde opinião, são erros cinematográficos de Tim Burton – “Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, 2001) e “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (Charlie and the Chocolate Factory, 2005) – pelo simples fato dos originais serem obras que beiram a perfeição, filmes ‘atemporais’, que qualquer ‘releitura’ demonstra-se no mínimo inferior ao primeiro. Inicialmente, adaptar Alice seria um tiro certeiro, até difícil de imaginar outro diretor e momento melhor para uma nova versão cinematográfica, com atores reais em um universo digital.

Novamente pergunto – Alice, qual é o problema? – Justamente o ‘problema’ desta Alice crescida é ‘o problema’ que ela tenta resolver nos 108 minutos de filme. O fator principal que leva Alice de volta ao País das Maravilhas não é nem um pouco maravilhoso. O fato de Alice ter uma idade diferente foi uma decisão acertada por afastar esta versão, em certo grau, do livro e do filme de 1951. Mas o que poderia ser um ‘mote’ magnífico, ‘Alice quase adulta volta a encontrar seres num universo fantástico e onírico de outrora’, com milhares de desdobramentos possíveis, foi pobremente transformado em uma misera história de heroína ‘predestinada’.  Neste momento aproxima-se muito mais de ‘Lewis’, no caso C.S.Lewis e sua obra “As Crônicas de Narnia”, descaradamente inspirada no cristianismo e que utiliza de figuras míticas e folclóricas para contar histórias infantis cheias de heróis com destinos traçados antes de nascerem, muito distante da ‘viagem adulta’ da menina Alice do ‘Lewis’ em questão.

A roteirista Linda Woolverton, responsável por “A Bela e a Fera” (Beauty and the Beast, 1991) e “O Rei Leão” (The Lion King, 1994), demonstra utilizar a cartilha da “trilha do Herói” a risca e nos mínimos detalhes. O que fica é um argumento fraco, com desfecho com ares ‘feministas’ totalmente desnecessários. No ápice do filme, ela parece mais uma ‘Joana D’Arc’ do que Alice (talvez equivocadamente inspirado nesta ilustração presente no segundo livro, mas que nada remete aos temas centrais das duas histórias). Aparentemente a ‘lapidação’ do roteiro não foi bem sucedida, muito diferente dos bem construídos e produzidos pela Pixar, parceira da própria Disney (registra-se que são quatro anos trabalhando o roteiro das animações Pixar).

1865 x 2010

É necessário salientar que a obra de Carroll, com seus 145 anos de existência, é muito rica e permite diversos estudos, tanto pela escrita quanto pelo conteúdo. Lançado em 1865, quando Sigmund Freud tinha apenas nove anos de idade, meio século antes dos Surrealistas, já tratava de questões oníricas e do chamado nonsense. Um olhar superficial para muitos, poderia tratar o livro como infantil, mas as metáforas contidas nos parágrafos de Alice, além das diversas figuras de linguagem empregadas nas conversas da menina com outros seres, demonstram a profundidade do texto e um olhar nos diferentes aspectos psicológicos do ser humano (afortunados os que podem ler o texto original em inglês, apesar de existirem boas adaptações em português).

A comparação (inevitável) entre o livro e o filme, nos traz uma diferença gritante. O primeiro, independe de um motivo central, a cada nova situação que a jovem encontra é um pequeno enredo cheio de humor e profundidade, tanto que o desfecho da história é o menos importante. Já o segundo, baseia-se em uma adolescente frustrada, que ‘busca algo a mais na vida’, que ‘não esta satisfeita com os moldes da sociedade’, e encontra nesta ‘aventura’ o que lhe faltava para se ‘emancipar’ na vida real, chega a ser surpreendente colocarem uma história tão repetida em uma produção milionária de alcance mundial.

1951 x 2010


Se observarmos as duas produções da Disney, existem dois pontos que elas se assemelham muito, guardadas as devidas proporções. Ambas merecem aplausos pelo primor técnico, a animação de 1951 beira a perfeição na arte do desenho animado, os movimentos de Alice são extremamente fluídos. Assim como os personagens digitais da versão de 2010, que dificilmente é possível saber onde começa o real e onde termina a computação gráfica.

Outro ponto importante, é a confusão de personagens dos dois livros que inspiraram os filmes – “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e “ Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá”. (Diga-se que os livros são diferentes, o primeiro pouco é citado no segundo, com personagens totalmente diferentes sendo o primeiro texto bem superior ao segundo) Em 1951 a primeira parte mostra-se confusa e chega ser entediante, apesar do bom desenrolar do meio para o fim, conseguindo tirar bons trechos da obra de Lewis. Já na ‘Alice de Tim Burton’ o equivoco é muito maior, relações familiares inexistentes, até uma batalha entre baralho e xadrez (coisas bem distintas nas duas obras) chegam a irritar de tanta distância que fica do original. Em certos momentos o filme parece descarregar “detalhes” dos dois livros a esmo, numa tentativa de criar uma história totalmente diferente com personagens que ‘lembram bem de longe’ os originais.

Mas Alice é bom…

Eu gostei do filme. Pode até parecer contraditório, mas a assinatura de Tim Burton consegue ‘salvar’ a produção de um desastre maior. Mia Wasikowska faz uma ótima Alice, sem contar com a brilhante atuação e caracterização de Bonham Carter como Rainha de Copas, além de Johnny Depp que dispensa comentários. O que fica é um enorme pesar, de uma adaptação que poderia ter um roteiro ‘maravilhoso’, digno do texto original, mas que tem muito ‘Disney’ e pouco chá de cogumelo.

Pra não dizer que não falei das flores, ficam questões a serem discutidas: ‘seria medo da Disney de errar, perder público infantil num roteiro complexo?’, ‘Será que ninguém avisou – meu, essa história esta uma @#@#$!-’. Seja de quem tenha sido o erro eu digo: “Cortem a cabeça!”.

Senti muita ‘vergonha alheia’ na cena ridícula da ‘dancinha’ do Chapeleiro. Outro fato quase inexplicável que merecia algumas cabeças rolando. O que deixa entender, após o seu Willy Wonka, é que Burton e Depp tem algum ‘fetiche’ sobre a figura de Michael Jackson. Será!? “Cortem a cabeça!”

Pra não dizer que não falei das flores novamente, essa música que deu o nome ao titulo do post, é de uma banda grunge chamada Terrorvison, uma daquelas “bandas de um único sucesso”, tocou no radio na década de 1990 e o videoclipe esteve nas paradas de sucesso da MTV. Além de ser uma passagem do filme de 1951, onde a Lagarta pergunta para Alice “Qual é exacticamente o seu problema?”

Vale conferir o texto do cineasta  Jorge Furtado “Alice Através do Espelho do Tempo“,  sobre os livros e as adaptações da Disney. O mesmo conhece muito a obra pois já traduziu o texto original para o português.

Algumas versões

Alice de 1903 – É no mínimo engraçado as crianças vestidas de cartas correndo atrás da Alice.

Alice de 1988 – Esta versão stop motion/live action surrealista é um pouco assustadora, dirigida pelo polonês  Jan Švankmajer.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em maio 11, 2010 em All Posts

 

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O Duplo de Saramago

Teria sido Adão o primeiro a ver sua imagem em algum lago de água cristalina e perceber que sua face estava duplicada no reflexo? Na verdade, Adão já era um Duplo, a ‘imagem e semelhança’ do seu criador. Presente na primeira história sobre a origem do homem, segundo o Cristianismo, a figura do Duplo sempre rondou a mente humana em todas as civilizações e serviu de inspiração para incontáveis fábulas, histórias entre outras expressões artísticas.

Quando a literatura, o cinema, a música ou a psicanálise tratam dos seres idênticos, os sentimentos despertados são geralmente perturbadores, mexendo com diversas  aspirações humanas e análises que chagam até o questionamento sobre a existência, consciência e continuidade da vida em outro ser.

Em seu ensaio “O duplo na literatura: reflexão psicanalítica”, Nájla Assy aponta para autores e obras que através dos tempos utilizaram a figura do Duplo, os quais datam desde sempre. Mahabharata (século IV-V a.C.) livro sagrado da Índia, Shakespeare, Oscar Wilde, H. G. Wells, Robert Louis Stevenson criador de uma do mais famosos casos da literatura “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde” ou mais conhecido como “O Médico e o Monstro”, são alguns exemplos.

Sobre o duplo, Carla Cunha observa seus possíveis significados, segundo Sigmund Freud (1919):

Freud, no seu texto datado de 1919, Das Unheimliche, afirma que o DUPLO, apesar de nos parecer algo de estrangeiro, estranho a nós-mesmos, sempre nos acompanhou desde os tempos primordiais do funcionamento psíquico, estando sempre pronto a ressurgir e provocando-nos uma sensação de inquietante […]. Nesta perspectiva, o DUPLO assume importante papel de mediador entre duas entidades que não são mais que uma. Contudo, de elemento estruturador, que contraria a pulsão da morte, surgindo como um vestígio do Narcisismo primário […].

Tertuliano Máximo Afonso, um pacato professor de história, cuja a vida não seria nota nem de jornal de bairro, tem sua paz quase ‘solitária’ perturbada após assistir um filme onde, um ser exatamente igual a ele, aparece num papel secundário. Atormentado por saber que um outro caminha pela face da terra com a sua cara, não poupa esforços para encontrá-lo e matar sua ansiedade incontrolável devido o fato desta incomum duplicidade física. Não se tratam de gêmeos separados no nascimento, mas sim de dois homens fisicamente iguais, até a voz é exatamente a mesma.

Este é uma pequena sinopse da visão do Duplo que Saramago colou em seu livro “O Homem Duplicado” (2002). Quem já teve o prazer de ler alguma obra deste renomado escritor português sabe que a pontuação de seus textos difere de quase todos os outros escritores que nossa língua mãe já proporcionou. Nunca permitiu que sua obra fosse ‘adaptada’ para o chamado ‘português brasileiro’, o que permite uma leitura ainda mais curiosa por termos e expressões. Aliás, um dos pontos altos desta obra, é justamente a quantidade de ditos populares colocados a prova e expostos pelas personagens e pelo próprio narrador. Este brinca em algumas partes com os pequenos jogos narrativos, demonstrando ao leitor algumas artimanhas literárias para se chegar a alguma idéia proposta no texto. As metáforas criadas por ele, não só neste livro, como em várias de suas obras, são para mim as principais virtudes de Saramago, com destaque para “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995).

Seria demasiado presunçoso da minha parte, tentar traçar as incontáveis características e particularidades dos textos deste Nobel de Literatura, o que posso expor aqui é o fator humanizado dos personagens que rodeiam a questão do Duplo nesta obra. Como qualquer tema curioso, ‘duplicado’ e repetido através da história e que rende até mote para novela(s) global, cair nas armadilhas de clichês para um escritor comum seria muito fácil. Saramago expõe as qualidades humanas (leia-se também defeitos), quando certos fatos inusitados são colocados em meio a homens e mulheres comuns, com seus medos e desejos. O acontecimento por si só já é bizarro, assim como muitas propostas de outros livros dele, por exemplo: “A Jangada de Pedra”, onde a Península Ibérica se desprende do continente europeu e vaga aparentemente a deriva pelo Oceano Atlântico, ou mesmo quando em um país, sem nenhuma explicação, ninguém mais morre no hilário “Intermitências da Morte”.

Indecisos, impulsivos, medrosos, infantis, espertos, apaixonados, invejosos, rancorosos, vingativos, melancólicos, estúpidos, os poucos personagens de “O Homem Duplicado” são demasiadamente humanos. O autor coloca até o dito “senso comum” como um duplo na mente do personagem principal, discutindo suas atitudes e demonstrando um conflito interno de Tertuliano.

O egoísmo aflorado pela existência da possível “cópia”, demonstra um dos paradoxos humanos, a necessidade de viver com seus pares, desde que mantenha sua ‘individualidade’, ou seja, precisa viver em comunidade, mas sente a necessidade de ser único.

Nem sempre as páginas de Saramago são de fácil fluidez para um leitor menos atento, tanto pela forma de escrita como pelos caminhos tortuosos, e até pelos pensamentos aleatórios que personagens e narrador percorrem muitas vezes, extrapolando o plano do enredo principal e muitas vezes “divagando” sobre questões de infinitas particularidades. Para ilustrar isto, em determinado trecho, após uma conversa de Tertuliano com sua mãe, ele relembra uma frase dela: “Não sabemos tudo o que nos espera para além de cada acção nossa, havia dito a mãe, e esta verdade corriqueira, ao alcance de uma simples dona de casa de província (…)” em seguida Máximo Afonso conclui “Cada segundo que se passa é como uma porta que se abre para deixar entrar o que ainda não sucedeu, isso a que damos o nome futuro, porém, desafiando a contradição com o que acabou de ser dito, talvez a ideia correta seja a de que o futuro é somente um imenso vazio, a de que o futuro não é mais que o tempo de que o eterno presente se alimenta.” Pensamento profundo, que permite reflexão e discussão, mas de certa forma aleatório ao enredo principal da trama.

Confesso que a primeira metade desta obra foi até cansativa, pelo esforço de concentração, mas quando as personagens finalmente atingem o ponto de encontro, o que inicialmente era apenas idéias sobre o assunto, muda para acontecimentos sempre curiosos e surpreendentes, e o melhor desfecho de todos os livros que tive oportunidade de ler até agora de José Saramago.

O Duplo: Cinema, alguns clipes de Gondry e um pouco de Surrealismo

Não só pelo número de obras da literatura, mas também pelos filmes, e outras ferramentas de expressão, seria possível escrever uma ‘bíblia’ sobre os trabalhos que abordam o tema do duplo. Seguindo a linha da psicanálise de Freud, que influenciou o Surrealismo, em “A Metamorfose de Narciso”, de 1937, Salvador Dalí tentou recriar as condições do inconsciente pintando o mito de Narciso.

Em alguns videoclipes dirigidos por Michel Gondry, um dos melhores diretores da atualidade na minha opinião, e que livremente bebe na mesma fonte dos surrealistas, a presença do duplo é marcante, como em “Let Forever Be” (1999) da banda Chemical Brothers ou no impactante “Come Into My World” da cantora Kylie Minogue, só para citar alguns exemplos.

Como mostras recentes no cinema que falam do Duplo, podemos citar “O Sexto Dia” (The Sixth Day, 2000), aborda o tema da clonagem e toca na questão Freudiana da tentativa de vencer a morte através do duplo. Semelhante, mas com elenco mais convincente, “A Ilha” (The Island, 2005)  de Michel Bay (acredito que este seja o ponto alto em toda sua cronologia como diretor) tem Ewan McGregor e Scarlett Johansson na pele de clones criados somente para fornecer órgãos para ‘seus originais’. Temos “O Homem Duplo” (A Scanner Darkly, 2006) animação baseada em atuações reais de Keanu Reeves, Robert Downey Jr. e Winona Ryder, onde policiais vivem infiltrados no cambate as drogas, assim como o próprio “Os Infiltrados” (The Departed, 2006) de Martin Scorsese , mas que a questão do Duplo é tratado em um ‘grau’ menor. Tratando do assunto de uma maneira diferente, “Clube da Luta” (Fight Club, 1999), o personagem Jack (Edward Norton), sofre de distúrbios de dupla personalidade, na forma de Tyler Durden (Brad Pitt).

Até os quadrinhos nos fornece personagens marcantes que vivem ‘o conflito’ do duplo em sua trajetória, Hulk talvez seja o maior representante, aparentemente inspirado em “O Médico e o Mostro” já citado aqui. Quem não se recorda do desenho “Liga da Justiça” onde existia uma dimensão onde as personalidades dos personagens eram opostas aos originais. A própria essência dos super heróis, que possuem uma vida dupla, sempre entre a identidade secreta e a imagem pública.

Para finalizar, podemos voltar ao cinema e citar um trecho de “A.I. Inteligência Artificial” (A.I., 2001) quando David (Haley Joel Osment), se depara com outro robô igual a ele, e acaba destruindo-o gritando que ele era único e que não poderia existir outro ‘David’.

Pra não dizer que não falei das flores, o duplo está presente no consciente ou inconscientemente de todos. Olhar-se no espelho e ver a própria imagem todos os dias, já é uma experiência do duplo e pode trazer a questão de “Como seria ver a si próprio por outro ponto de vista?”. Ou mesmo questionar a ‘existência’ e a necessidade de ser único, como a marca da própria digital. A questão de ‘pais e filhos’, ‘mestres e aprendizes’, podem representar aspectos do duplo e a tentativa, segundo Freud, de vencer a maior certeza de todas, a própria morte.

Obs. 1: Agradeço muito a Edimaldia Ferreira, que me apresentou o texto de Carla Cunha sobre os significados do Duplo na época do TCC da Pós, e foi fundamental na construção dos argumentos daquele trabalho.

Obs. 2: Posso ter deixado de lado alguma obra de fundamental relevância sobre o Duplo na história, peço ajuda de todos que contribuam com indicações, comentários e observações sobre o tema.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em março 22, 2010 em All Posts

 

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Elementar e Além

Seria fácil criar um filme sobre o detetive mais famoso da história, o símbolo maior de toda uma classe investigativa, aquela figura que, imageticamente falando, tem uma relevância maior que o seu compatriota 007. Em tempos de inúmeras séries televisivas com detetives modernos, que usam a ciência, a tecnologia e a inteligência (Holmes?) para desvendar os mistérios quase insolúveis, se alimentar de toda esta mídia, e para não dizer ‘mini cultura investigativa’ criada nos tempos atuais, nada melhor do que o maior de todos para fazer sucesso no cinema. Mas chamaram um tal de Guy Ricthie para executar a tarefa, então o ‘elementar’ foi um pouco além.

Sherlock Holmes foi criado no final do século XIX pelo médico oftalmologista e escritor Arthur Conan Doyle. Ele utiliza o conhecimento para decifrar todo tipo de mistério, crime, ‘sapo morto’ ou pessoas que estejam passando na rua. Esta é a principal característica de todos os Sherlocks já criados, desde o original literário até as suas adaptações cinematográficas. Justamente aí esta o fascínio que este personagem exerce em todos, a ‘inteligência aplicada’ inspira e prova como o conhecimento é necessário e encanta.

Quem já assistiu aos excelentes “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, 1998) ou a “Snatch – Porcos e Diamantes” (Snatch, 2000) tem idéia do estilo marcante de Ricthie. O slow motion, os pensamentos dos personagens, os closes, a fotografia, o sotaque inglês carregado, os capangas, está tudo em Sherlock, mas não de forma gratuita. Ritchie ‘assina’ o longa sem ser cansativo nem repetitivo, e o ‘respeito’ pela personagem histórica esteve presente em pequenos elementos que, confesso, desconhecia pertencer as histórias do detetive inglês.

Por nunca ter lido nenhum dos seus romances, busquei informações sobre o mesmo, pois a figura é tão marcante, excessivamente repetida e parodiada na história do cinema e TV, que até acreditava já ter assistido a muitas de suas tramas. Na verdade, “O Enigma da Pirâmide” (Young  Sherlock Holmes, 1985), reina quase que absoluto em minha memória, onde o diretor Barry Levinson também fugiu do óbvio e magistralmente colocou as figuras de Sherlock e o Dr. John Watson na adolescência.

Fui novamente surpreendido, ao descobrir que seu ‘ar arrogante’ não é somente fruto da boa interpretação do Robert Downey Jr., muito menos seu violino presente em muitas cenas, ou até mesmo a luta por uns trocados (o Holmes original lutava box). Tudo faz parte da personalidade criada na palavras de Doyle no final do século XIX e sempre narradas pelo Dr. Watson, amigo inseparável de Holmes (mesmo quando não deseja), facilmente incorporado por Jude Law. Não sei se faz parte dos livros, mas a bela Rachel McAdams está perfeita na papel de Mary Morstan, assim como todo o elenco, muito bem escolhido.

Juntando todos os pedaços deste intrigante texto, “Sherlock Holmes” (2009), não abusa de suspense, aliás, poucos mistérios estão suspensos no ar, os elementos são apresentados sem muitas ligações aparente, em meio a muita ação e humor inteligente/sarcástico, Holmes decifra os enigmas ao decorrer da trama. Diversão garantida por Guy Ritchie, que conseguiu respeitar, não só a personagem central e toda sua história literária como principalmente o seu próprio estilo de fazer cinema.

Para não dizer que não falei das flores, preciso salientar a belíssima fotografia assinada por Philippe Rousselot, é um espetáculo a parte, desde os créditos iniciais, até os marcantes e estilizados créditos finais (que valeram o ingresso para mim). Os tons cinzas de uma Londres em construção, os elementos sombrios e as ruas úmidas são alguns dos detalhes que impressionam e servem de excelente pano de fundo para toda a trama de “Sherlock Holmes”.

Para não dizer que não falei das flores também, “O Enigma da Pirâmide” marcou muito minha infância/adolescência. Talvez pela proximidade da idade dos personagens com meus poucos anos de vida, ou mesmo pela trama inteligente e misteriosa. Só para enumerar alguns filmes do diretor estão: “Bom Dia, Vietnã” (Good Morning, Vietnam, 1987), “Rain Main” (1988), o fantástico “Mera Coincidência” (Wag the Dog, 1997).

Em tempos que as ‘sociedade secretas’ estão na moda, um trecho de “Enigma”.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em fevereiro 20, 2010 em All Posts

 

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80 Anos Inesquecíveis

Existem trabalhos que pelo próprio termo “trabalho” associamos justamente com algo que exige muito esforço, de muitas dificuldades e cheio de problemas que devemos resolver. Mas que graça teria a vida se não fosse essa “ação dramática” que enfrentamos todos os dias?

O filme de animação “80 Anos Inesquecíveis” foi realizado num período ‘quase insano’ de um pouco mais de dez dias, sendo que a narração foi passada para mim, menos de uma semana antes do final do prazo de entrega. Afinal era aniversário da Vovó Bibi, personagem central da história, e não poderia ser postergado.

Devido ao prazo muito apertado, não foi possível realizar algumas adequações, como a locução que estava em um volume baixo e um pouco lenta, inserção de uma trilha sonora, além de alguns elementos que seria interessante acrescentar em algumas cenas.

Segui o roteiro defino (um texto muito bem escrito e narrado pelo neto Vitor e pela Carol, a cliente). Não tivemos como fazer alterações, mas o resultado me surpreendeu positivamente. Foi muito legal desenhar tudo na tablet, e depois passá-lo para o Flash, inicialmente achei que faria tudo a lápis e scanear, mas logo esse processo se mostrou demorado e improdutivo. A idéia dos desenhos era o estilo ‘tosco’ mesmo, para manter o tom de humor do filme. Infelizmente o Vovô Celso partiu um ano atrás, e um dos pedidos da cliente é que o vídeo tivesse uma cara leve e descontraída.

Aumente o volume  e curta este humilde ‘curta’ com a bela trajetória de Vovó Bibi e sua família:

Pra não dizer que não falei das flores, não conheço pessoalmente nenhum dos personagens, mas é muito interessante descobrir a história de uma pessoa que aparentemente teve uma vida muito intensa e criou uma família, no mínimo, muito bem humorada. Não posso deixar de dizer que foi um prazer realizar este ‘trabalho’, que a satisfação de desenhar e animar para mim não tem comparativos.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em fevereiro 6, 2010 em All Posts

 

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Esta é a Minha Ilha, é o Reino que Governo e Onde ‘Eles’ Vivem

Fora de controle, as peças não se encaixam, nada combina e todas as emoções transbordam para o caos, a fatalidade e a incompreensão. Então a única saída é fugir de tudo isso, e navegar a deriva num mar desconhecido, em busca de um porto qualquer. Em meio a tempestade de águas revoltas encontra-se uma ilha.

Neste pedaço de terra ‘eles’ vivem, em eterno conflito, com todas as suas peculiaridades, que num primeiro momento assustam, mas apesar de suas formas horripilantes, percebe-se algo familiar em todos eles. Uns aparentemente estão por perto o tempo inteiro, outros mal nota-se a presença, mesmo assim estão lá, marcando de alguma forma a existência. Esta ilha agora tem um rei.

Constrói-se uma fortaleza, para que só o desejável entre, mas isso é impossível. Ter o controle de quem entra ou quem sai é apenas um desejo utópico, distante da realidade. Logos ‘eles’, que aparentemente estavam calmos e em harmonia com a chegada do rei, expõem suas faces, o falso controle cai facilmente, neste reino ‘eles’ estão fora de controle, é difícil governar a própria ilha.

“Onde Vivem os Monstros” (Where the Wild Things Are, 2009), dirigido por Spike Jonze, é adaptação do livro com mesmo nome de Maurice Sendak. Quando vamos ao cinema para assistir um filme de Jonze, esperamos no mínimo algo inusitado, um olhar diferente, fotografia, montagem, tudo tem um trabalho personalizado e distante do comum.

Não é fácil gostar deste filme, porque as metáforas escondidas na história do garoto Max e os Monstros que dividem a tela com ele são sutis e dificilmente percebidas por mentes um pouco distraídas. A trilha sonora é delicadamente deliciosa, e dá suporte as viagens de Sendak e Jonze. Não sei quanto o filme é fiel ao livro, mas sem dúvida esta película não é nada infantil.

Peço ‘licença poética’ para definir e resumir este filme pelo meu ponto de vista: Todo homem é uma ilha, onde reina um menino cheio de histórias fantásticas, ele é a essência pura que reside dentro de cada indivíduo. Mas nesta ilha também habitam os monstros, oriundos de nossas fraquezas, são as faces tristes do lado obscuro também presente dentro de todos nós.

Pra não dizer que não falei das flores, Spike Jonze é da ‘turma’ de Michel Gondry e Charlie Kaufman, passou a década de 1990 dirigindo videoclipes para R.E.M, Björk, Sonic Youth, Daft Punk, The Breeders, Weezer entre outros. Estes vídeos marcaram época, ganharam prêmios e abriram o mercado do cinema para este diretor. Antes de “Onde Vivem os Monstros”, dois filmes que dirigiu, que chamam atenção pelos excelentes roteiros de Kaufman são “Quero ser John Malkovich” (Being John Malkovich, 1999) e “Adaptação” (Adaptation, 2002).

Seguem três momentos de pura genialidade de Jonze, “It’s so Quiet” com a sincronia em slow motion de Björk, o bem-humorado e já clássico “Sabotage” dos Beastie Boys e por último, mas não menos importante, “CannonBall” música de maior sucesso do The Breeders, onde é importante reparar as diferentes tomadas e ângulos inusitados como o rosto debaixo d’água e a câmera que corre com a bola.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em janeiro 30, 2010 em All Posts

 

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Time’s A Wasting

“I wear the black for the poor and the beaten down, / Livin’ in the hopeless, hungry side of town, / I wear it for the prisoner who has long paid for his crime, / But is there because he’s a victim of the times” (“Eu me visto de preto pelos pobres e oprimidos/ Que vivem no lado faminto e sem esperanças da cidade / Eu me visto assim pelo prisioneiro que há muito pagou por seu crime / Mas está ali pois é uma vítima dos tempos”). Trecho de “Man In Black” escrita em 1971.

Um homem trilha sua história cheia de problemas, desde a infância as coisas são difíceis para ele. Com o passar do tempo sente que dentro de si existe algo extraordinário, um dom que o difere dos comuns, ele parte em busca de seu destino, mesmo com muitos sendo contrários a sua luta. Logo, esse seu dom lhe dá notoriedade e ele passa a ser conhecido e amado por (quase) todos. Mas o que poderia ser um final feliz é justamente o ponto de partida da sua trajetória de muitos altos e baixos, perseguições e equívocos que o levam até o fundo do poço e para os braços da morte eminente. Até que um amor incondicional o traz de volta a vida, lhe dá a redenção, encontrando as forças em uma fé, o predestinado ressuscita e recebe sua absolvição.

Jesus, Homem-Aranha, Ray Charles, Karate Kid, etc. A trilha do herói, já academicamente analisada por diversos estudiosos de roteiros, é a receita para incontáveis histórias descritas pela humanidade. A vida de Johnny Cash se encaixa perfeitamente nela. Mesmo cometendo todos os abusos comuns para um ‘rock star’, envolvendo-se com drogas, ‘esquecendo’ da esposa/família durante as turnês, seu amor por June Carter e sua genialidade para música o absolvem de qualquer ‘tropeço’ cometido em vida.

Muito antes de Mano Brown nascer, Johnny Cash já versava os temidos e nem sempre justiçados presidiários. “Numa manhã enquanto dava voltas /Eu tomei uma dose de cocaína e matei minha mulher / Eu fui para casa e fui para cama / Guardei aquela amada 44 embaixo da minha cabeça” só como exemplo um trecho da famosa “Cocaíne Blues”. Foi justamente cantando musicas descrevendo passagens destes ‘fora-da-lei’ que ele ressurgiu para o sucesso no final dos anos 1960, mas afinal, não é olhando para os excluídos que o herói faz a diferença?

Johnny, que surgiu para o mundo da musica na metade do anos 1950, foi viciado em anfetaminas, foi preso algumas vezes, porém nunca chegou a ficar encarcerado por muito tempo. Vestia-se totalmente de preto, e a sua lista de amigos é no mínimo de respeito. No inicio de carreira dividia os palcos com Elvis e Jerry Lee Lewis, nos final dos anos 1960 ficou muito amigo de um tal Bob Dylan, até Ozzy Osbourne trocou algumas ‘idéias’ com ele nos anos 1980. A lista de influenciados pelo seu ‘country rock gospel bandido’ vai de U2 a Norah Jones e ele mesmo teve seu ultimo grande sucesso gravando “Hurt” composta por Trent Reznor do Nine Inch Nails.

O filme

“Johnny & June” (Walk The Line, 2005) é a cinebiografia do nosso herói e cantor country americano, com direção e roteiro de James Mangold (mesmo roteirista e diretor de “Garota, Interrompida”, 1999), estrelada por Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon (atuação que lhe rendeu o merecido Oscar de melhor atriz). A dupla incorpora Cash e Carter de maneira sublime, e para minha grata surpresa,os atores cantam todas as musicas, sendo a voz de Joaquin ainda mais grave do que a original de Johnny, dando uma nova ‘roupagem’ para as canções.

O amor ‘latente’ cultivado por anos de proximidade entre o casal é muito bem explorado e torna-se o fio condutor de toda a trama. Sentimento este que depois de mais uma década pode ser declarado e consumido em público. Se não fosse baseado em fatos reais, poderíamos dizer que o filme é um enorme emaranhado de chavões com estrelas viciadas, casamentos desfeitos, auto-destruição do herói por causa de uma culpa injusta, e um final romântico onde os mocinhos ‘viveram felizes para sempre’. Em 2003, depois de mais de trinta anos de casamento, Cash morreu quatro meses após a sua amada Carter ter falecido.

Pra não dizer que não falei das flores, muitos dizem que se o blues é a mãe do rock e o pai com certeza é o country. O começo da trajetória musical de Johnny Cash demonstra como o rockabilly se misturava facilmente com a musica dele. Considerado por muitos o maior representante do estilo, foi rejeitado pela indústria da música conuntry nos anos 1990, mesmo período em que ele ressurgiu novamente (como uma Fênix de violões) emplacando sucessos e ganhando até Grammy.

Pra não dizer que não falei das flores novamente, faz dez dias que permeia em minha cabeça escrever este texto sobre o filme e o cantor, coincidência ou não, hoje vi um cara com uma camiseta com a famosa foto de Cash mostrando o dedo para as rádios e gravadoras country americanas.

Obs.: Infelizmente não encontrei no youtube a passagem em que Johnny pede June em casamento no palco.

Obs.2: A foto de abertura, na minha humilde opinião, é uma das mais belas da história do cinema.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em janeiro 18, 2010 em All Posts, Coisas de Filme, Notas Musicais

 

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