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Arquivo mensal: junho 2011

Nada é Para Sempre

No começo tudo são flores, até mesmos os defeitos parecem fazer parte de uma magia que encanta. Quando bate diretamente com aquilo que sonhamos como ideal, então o tão desejado “felizes para sempre” nos parece a mão. Mas as pessoas mudam, o mundo muda, o tempo passa, e o tempero inicial pode ser muito indigesto quando usado em excesso. O novo se torna gasto e sem brilho, até a musica da sua vida se transforma em um som irritante e enjoativo. “Blue Valentine” (2010), disseca o frescor e o desgaste de um casal que de tão comum pode ter sido inspirado na vida de qualquer pessoa, até na sua.

De forma muito orgânica, e que muitas vezes se aproxima de uma linguagem documentarista, o diretor Derek Cianfrance consegue mostrar de maneira crua e realista dois pontos chaves de um relacionamento, o inicio encantador e apaixonado, em paralelo uma crise após quase uma década de convivência. Extraindo interpretações sinceras e acima da média de Ryab Gosling (Dean) e principalmente de Michelle Williams (Cindy).

Resumindo, uma garota de suburbio, bela e muito inteligente, sonha em ser médica. Rapaz sem muito estudo, mas com muito potencial e bom coração. Cindy namora ‘o cara’ da escola, porém pouco romântico. Dean trabalha como carregador e sonha encontrar uma garota legal. Em um momento de desilusão dela, eles se conhecem e começam um relacionamento encantador, aparentemente ambos encontram o que faltava tanto nas experiências anteriores como nas histórias dos próprios pais.

Após anos de convivência, as responsabilidades de criar uma filha, manter um lar e pagar as contas, a distância e o desgaste são visíveis. Ele transporta as brincadeiras, as musicas e todo amor para a filha, quase esquecendo da companheira, enquanto ela sente o peso de lidar com o alcoolismo e infantilidade do marido, e o peso de ser boa mãe e boa enfermeira (distante da médica que desejava ser).

Estes extremos expostos acima são tão comuns que poucas pessoas não viveram ou viram bem de perto situações semelhantes. O risco de entrar em velhos clichês é alto,  mas “Blue Valentine” se desenrola no limite e não entra no comodismo das situações simples e de fácil digestão. O paralelo dos diferentes momentos da mesma relação pontuam ainda mais os problemas da mesma, como quando em uma tentativa de aquecer a relação, Dean coloca “a música” do casal que surte pouco efeito para uma noite qeu deveria ser especial, em outra cena o diretor demonstra a ‘primeira vez’ daquela musica para o casal, cheia de emoção, encantamento e romantismo.

Como do veneno que mata também extrai-se o antídoto, por chegar tão perto da realidade, este “Blue Valentine” em certos momentos se transforma em um blue movie, cansativo e angustiante. Com certeza não agrada ao público em geral, justamente por mostrar pessoas comuns em situações comuns (porém muito complicadas), sem príncipes encantados ou carruagens de cristal.

Pra não dizer que não falei das flores, a música do casal é “You and me” de Penny & The Quarters, uma gravação dos anos 1970, esteve perdida por decadas nos arquivo de uma gravadora até ser redescoberta em 2006 e agora atingir o sucesso por causa do filme.

Pra não dizer que não falei das flores ainda, tenho que informar que a campanha brasileira em cima de “Namorados para Sempre” (Blue Valentine, 2010) cometeu erros imperdoáveis. Além de um titulo equivocado, utilizou chamadas puramente comerciais com a intenção de atrair o publico no dia dos namorados do Brasil, mas após dos 114 minutos, alguns casais provavelmente sairam com várias dúvidas se vale a pena continuar o relacionamento.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em junho 19, 2011 em Sem categoria

 

O Melhor X da Questão

Quem nunca se sentiu diferente? Por um nariz, uma orelha, por ser magro, gordo, pobre, rico, negro, amarelo ou azul? A simples diferença infelizmente gera muitas vezes estranhamento, medo, revolta, segregação, preconceito entre outros efeitos colaterais. Talvez um dos maiores paradoxos da humanidade, pois sabemos que somos iguais e ao mesmo tempo somos únicos, com virtudes e defeitos que nos diferenciam de todos os outros, o problema é quando alguns se acham mais iguais que os outros.

Apesar de algumas vezes as adaptações de quadrinhos conseguirem sequências melhores que os filmes iniciais das séries – caso de “Cavaleiro das Trevas”  (The Dark Knight, 2008) e o próprio “X-Men 2″(2003) de Bryan Singer – sempre que uma continuação é lançada, existe o temor de que algo ruim e puramente comercial está por vir. Tanto que “X-Men 3: O Confronto Final”, aparentemente finalizava a franquia de forma decepcionante, sem Singer e sem brilho.

Mas a trilogia como um todo foi um sucesso, por isso o elenco ficou encarecido por estrelas, resultando na dificuldade em manter o universo utilizando o mesmo elenco – além de do terceiro filme eliminar parte dos principais personagens.  Para dar continuidade a ‘galinha de mutantes de ouro’ , inciou-se uma série de novos títulos.  Wolverine, quase unânime entre os fãs como o personagem mais carismático, ganhou um capitulo fraco sobre sua origem e fez muitos se decepcionarem. Mas “X-Men: Primeira Classe” (X-Men: First Class, 2011) de Matthew Vaughn (diretor do ‘redondo’ e bem construído “Stardust”, 2007) supreende por ser o melhor da franquia até aqui.

Como no ultimo filme do homem-morcego, esta primeira classe ganha pelo ótimo roteiro, que explora muito bem a questão complexa da diferença e do preconceito (tema principal do universo X e muito debatido pela sociedade atual). A construção das histórias de Charles Xavier (James McAvoy) e de Erik Lehnsherr (Michael Fassbender), futuro Magneto, são a base bem estruturada de toda linha narrativa, que utiliza acertadamente acontecimentos históricos reais (II Guerra Mundial e Crise dos misseis entre EUA e URSS nos anos 60), dando um tom ainda mais verossímil para os personagens, que apesar dos poderes mutantes, sofrem psicologicamente e socialmente por não serem considerados normais. Respeitando a trilogia já existente,  as origens distintas dos futuros líderes mutantes justificam suas ações dentro desta trama e dos filmes anteriores que se passam décadas depois. Também convincentes estão Kevin Bacon como o vilão Sebastian Shaw e Jennifer Lawrence (Raven Darkholme / Mística), que é a melhor personificação da questão mutante de aceitação, tanto da sociedade como dela e sua própria natureza.

A grande diferença deste ‘First Class’ é se distanciar do show pirotécnico de computação gráfica que existe em alguns filmes do genero – que se assemelham mais a linguagem de Games dos que de quadrinhos  – e se preocupa em contar um boa história. Os 132 minutos são talhados com pequenos conflitos, onde cada mutante encara de uma forma, tanto a sua mutação, como a escolha do ‘lado’ para lutar em meio a muitas tensões sociais e politicas.

Outro trunfo deste “X-Men” é mostrar claramente que apesar de diferentes, os mutantes são humanos, com qualidades, defeitos, desejos e principalmente são mortais. Em nenhum momento a sensação de conforto existe. O humor dosado na medida certa para aliviar a trama, sem exageros – aliás, outras franquias se perdem tentando agradar ao público adolescente carregando em humor e pirotecnia, abdicando de uma trama mais complexa.

O desfecho mantém o ritmo, justifica aspectos do universo X da franquia, e surpreende quem desconhece a história, por isso agrada aos fãs da primeira trilogia e aos espectadores casuais, possivelmente novos admiradores da escola para mutantes do Professor Xavier.

Pra não dizer que não falei das flores, meu modo de fazer uma crítica é analisando não apenas a obra em si, mas observando o meio, tempo e ao que se propõe a obra analisada. Não teria como fazer uma analise baseada nos quadrinhos da Marvel (isso eu deixo para meu amigo Diego M. Gomes que é especialista e mestre na arte e no universo X-Men), por isso esta humilde análise foi realizada em cima do filme como cinema e nas obras, tanto da franquia, como outras do mesmo gênero.

por Jonas Ribeiro

 
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Publicado por em junho 12, 2011 em All Posts, Coisas de Filme

 

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