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A Morte do Autor?

27 ago

A autoria, por muitas vezes, deu mais crédito às obras do que por mérito delas em si. Além de muitos trabalhos serem analisados, criticados, idolatrados e até mal-compreendidos pelo “conjunto da obra” do próprio autor. Mas o que fazer quando a mesma origina-se de outra que (teoricamente) pertence a outro individuo? Ou quando a obra é divida em várias etapas, onde vários artistas colaboram para o produto final que possui um pouco de cada e ao mesmo tempo não consegue ter assinatura de nenhum deles?

Um dos aspectos da chamada Hipermidia, é o fator colaborativo de muitos para um objetivo. Podemos citar até a Web 2.0 que também compreende uma autoria colaborativa, vide o próprio Wikipédia, exemplo de  múltiplos autores. Mas justamente no ponto onde a variedade de autores contribui para construção desta mídia, também acarreta em dúvidas sobre sua qualidade e veracidade. Mas esta desconfiança tem fundamentos?

A partir do surgimento da imprensa, a multiplicação da informação e da arte possibilitou a divulgação de uma criação atravessar fronteiras, e a cada nova mídia que a tecnologia nos apresenta, maior o numero de pessoas atingidas e mais rápido é este alcance. Isso acarreta numa rede de influência artística mundial, muito do que era somente apreciado por um publico seleto de uma região nos confins de um pais qualquer, agora pode influenciar criadores e artistas do mundo inteiro.

Discutisse então até onde vai a influência, a referencia, e quais os limites da utilização da obra original na criação de uma nova obra.

Rip – A Remix Manifesto, é um documentário canadense dirigido por  Brett Gaylor em 2009, que utiliza o produtor/DJ  “Girl Talk”, para falar de direitos autorais e musica na era digital. A revolução que o “falecido” Napster causou na indústria fonográfica, para não dizer artística mundial, que muda todo um conceito de mercado, nos trás uma questão filosófica, até onde o autor tem controle sobre sua obra?

Importantes questões são levantadas, como direitos sobre obras onde o próprio autor não se beneficia em nada dos frutos das mesmas, principalmente por ter morrido a quase 70 anos atrás (Existem leis tanto na Europa como nos EUA que dão direitos autorais sobre uma obra até 70 anos após a morte do autor, caso da “Happy Birthday To You” que pertence a Warner Chappell).

Por uma lógica poética e até filosófica, apenas o autor deveria ter direito aos benefícios que sua obra pode trazer. Mas então voltamos ao ponto inicial, até onde o autor é o único responsável pela sua própria obra? E pior! Porque a arte, que teoricamente é criada para sociedade, deve ser taxada, cobrada e usurpada por dezenas de anos, e não entregue ao beneficio cultural da comunidade?

Utopias a parte, Gaylor escorrega quando coloca os remixes de Girl Talk no mesmo patamar de uma musica (teoricamente) criada do zero. Dizer que não existe contribuição artística por parte do DJ seria muito errado, ao mesmo tempo que utilizar-se de trechos de outras musicas conhecidas é pegar “emprestado” toda a conquista cultural e de publico da primeira. Portanto não é legitimo dizer que ele possa utilizar da maneira que bem entende trechos de outras obras sem o mínimo de consulta. Ou é? Como num circulo vicioso, voltamos as mesas questões, até onde aquela musica que foi gravada a 30 anos atrás já não faz parte de domínio publico, porque demora-se tanto para que a arte seja entregue a sociedade e que possamos fazer o que quiser com ela, principalmente criar coisas novas e evoluirmos artisticamente e socialmente?

Em “Remix” deixa-se claro que os direitos autorais, no ultimo século e até hoje, são uma simples desculpa para grandes corporações ganharem (e muito) com a arte de outros. Impérios manipulam a midia, fazem lobby para leis em beneficio próprio e transformam arte um negócio altamente lucrativo.

Interessante é que justamente a tecnologia que permitiu a gravação, estocagem e conseqüente comercialização da musica, agora tira, com o advento das redes que proporcionam a troca de conteúdo sem taxas nem “atravessadores”. Claro que existe ainda uma onda muito forte de corporações que se alimentam do mercado a mais de 50 anos que vão contra isso. A indústria do cinema contra-ataca a chamada pirataria ao utilizar cinemas 3D, mídias com conteúdo em alta definição, entre outros. São armas para retardar o processo de “socialização” de conteúdos.

A comunidade digital, sem bandeira, sem nação, e apesar de tantos nomes, avança quase anônima, tomando a arte de volta sem se preocupar em ter que pagar a conta. Infelizmente a democratização da informação ao invés de expandir o conhecimento e criar uma sociedade mais evoluída, parece atrofiar mentes pelo mundo afora, mas isso já é uma outra história.

Para não dizer que não falei das flores, o documentário é excelente, apesar de muitas vezes tendencioso.  O ponto alto é a abordagem sobre a Disney, que nasceu copiando filmes de sucesso em seus desenhos e atualizando para o cinema de animação, obras da literatura mundial, após criado o império, os mesmos foram ao presidente americano “pedir” para que leis fossem criadas “protegendo” todo o material dela mesma.

Para não dizer que não falei das flores ainda ficam questões importantes sobre esse assunto que rendem teses e discussões:

Se a cultura bebe do passado, por que restringir o acesso, e proibir sua utilização como instrumento evolutivo dela própria?

Metafóricamente falando, não deveriamos ser como pais que criam seus filhos para o mundo, será que a arte também não deve seguir o mesmo caminho?

Afinal, a arte pertence ao autor ou ao agente receptor dela? (Com certeza não deveria pertencer a Warner ou a Disney)

por Jonas Ribeiro

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Publicado por em agosto 27, 2010 em All Posts, Coisas de Filme

 

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