RSS

Alice, What’s the Matter?

11 maio

Alice é uma personagem diferenciada. No clássico literário de Lewis Carroll, foi criado um universo onírico, inspirado na ingenuidade de ações e pensamentos de crianças. Os personagens, cenários e acontecimentos são claramente reflexos de pessoas e situações reais, com seus apelos psicológicos, próprios da mente humana. Por isso, esta obra gerou incontáveis estudos, adaptações e inspirou gerações de artistas e pessoas comuns.

A Disney criou enorme expectativa, quando em meados de 2007, anunciou que iria adaptar novamente esta obra literária (já adaptado em 1951 pelo próprio estúdio). Além do fato de utilizar tecnologia 3D de ponta para projeção, as características da filmografia do diretor a frente do projeto de “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, 2010) não deixavam dúvidas sobre o resultado final. ‘Deixavam?’

Tim Burton é o tipo de diretor que assina tudo o que faz, sempre carregando ao seu lado sua equipe, que vai desde a dupla de atores Helena Bonham Carter (esposa de Burton) e Johnny Depp, ao figurino de Colleen Atwood, além da música sempre composta por Danny Elfman. Estes estavam presentes em filmes como o interessante e bizarro musical “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, 2007) e no clássico moderno “Edward Mãos de Tesoura” (Edward Scissorhands, 1990). Aliás, são justamente figurino e trilha que (além da direção de arte fantástica) dão o apelido para este filme: “Alice de Tim Burton”.

A sensação de imersão num mundo de fantasia, ampliado pela projeção 3D, é indiscutivelmente o ponto alto de “Alice”, o Gato de Cheshire é o personagem mais próximo ao literário e todas as suas aparições são magníficas. Tanto as vozes, o elenco digital, quanto os atores ‘reais’, foram muito bem desenhados e escolhidos, todos passam uma veracidade ao ambiente criado por Tim e sua equipe.

Mas fica a pergunta – Alice, qual é o problema? – Distante de duas refilmagens que, na minha humilde opinião, são erros cinematográficos de Tim Burton – “Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, 2001) e “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (Charlie and the Chocolate Factory, 2005) – pelo simples fato dos originais serem obras que beiram a perfeição, filmes ‘atemporais’, que qualquer ‘releitura’ demonstra-se no mínimo inferior ao primeiro. Inicialmente, adaptar Alice seria um tiro certeiro, até difícil de imaginar outro diretor e momento melhor para uma nova versão cinematográfica, com atores reais em um universo digital.

Novamente pergunto – Alice, qual é o problema? – Justamente o ‘problema’ desta Alice crescida é ‘o problema’ que ela tenta resolver nos 108 minutos de filme. O fator principal que leva Alice de volta ao País das Maravilhas não é nem um pouco maravilhoso. O fato de Alice ter uma idade diferente foi uma decisão acertada por afastar esta versão, em certo grau, do livro e do filme de 1951. Mas o que poderia ser um ‘mote’ magnífico, ‘Alice quase adulta volta a encontrar seres num universo fantástico e onírico de outrora’, com milhares de desdobramentos possíveis, foi pobremente transformado em uma misera história de heroína ‘predestinada’.  Neste momento aproxima-se muito mais de ‘Lewis’, no caso C.S.Lewis e sua obra “As Crônicas de Narnia”, descaradamente inspirada no cristianismo e que utiliza de figuras míticas e folclóricas para contar histórias infantis cheias de heróis com destinos traçados antes de nascerem, muito distante da ‘viagem adulta’ da menina Alice do ‘Lewis’ em questão.

A roteirista Linda Woolverton, responsável por “A Bela e a Fera” (Beauty and the Beast, 1991) e “O Rei Leão” (The Lion King, 1994), demonstra utilizar a cartilha da “trilha do Herói” a risca e nos mínimos detalhes. O que fica é um argumento fraco, com desfecho com ares ‘feministas’ totalmente desnecessários. No ápice do filme, ela parece mais uma ‘Joana D’Arc’ do que Alice (talvez equivocadamente inspirado nesta ilustração presente no segundo livro, mas que nada remete aos temas centrais das duas histórias). Aparentemente a ‘lapidação’ do roteiro não foi bem sucedida, muito diferente dos bem construídos e produzidos pela Pixar, parceira da própria Disney (registra-se que são quatro anos trabalhando o roteiro das animações Pixar).

1865 x 2010

É necessário salientar que a obra de Carroll, com seus 145 anos de existência, é muito rica e permite diversos estudos, tanto pela escrita quanto pelo conteúdo. Lançado em 1865, quando Sigmund Freud tinha apenas nove anos de idade, meio século antes dos Surrealistas, já tratava de questões oníricas e do chamado nonsense. Um olhar superficial para muitos, poderia tratar o livro como infantil, mas as metáforas contidas nos parágrafos de Alice, além das diversas figuras de linguagem empregadas nas conversas da menina com outros seres, demonstram a profundidade do texto e um olhar nos diferentes aspectos psicológicos do ser humano (afortunados os que podem ler o texto original em inglês, apesar de existirem boas adaptações em português).

A comparação (inevitável) entre o livro e o filme, nos traz uma diferença gritante. O primeiro, independe de um motivo central, a cada nova situação que a jovem encontra é um pequeno enredo cheio de humor e profundidade, tanto que o desfecho da história é o menos importante. Já o segundo, baseia-se em uma adolescente frustrada, que ‘busca algo a mais na vida’, que ‘não esta satisfeita com os moldes da sociedade’, e encontra nesta ‘aventura’ o que lhe faltava para se ‘emancipar’ na vida real, chega a ser surpreendente colocarem uma história tão repetida em uma produção milionária de alcance mundial.

1951 x 2010


Se observarmos as duas produções da Disney, existem dois pontos que elas se assemelham muito, guardadas as devidas proporções. Ambas merecem aplausos pelo primor técnico, a animação de 1951 beira a perfeição na arte do desenho animado, os movimentos de Alice são extremamente fluídos. Assim como os personagens digitais da versão de 2010, que dificilmente é possível saber onde começa o real e onde termina a computação gráfica.

Outro ponto importante, é a confusão de personagens dos dois livros que inspiraram os filmes – “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e “ Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá”. (Diga-se que os livros são diferentes, o primeiro pouco é citado no segundo, com personagens totalmente diferentes sendo o primeiro texto bem superior ao segundo) Em 1951 a primeira parte mostra-se confusa e chega ser entediante, apesar do bom desenrolar do meio para o fim, conseguindo tirar bons trechos da obra de Lewis. Já na ‘Alice de Tim Burton’ o equivoco é muito maior, relações familiares inexistentes, até uma batalha entre baralho e xadrez (coisas bem distintas nas duas obras) chegam a irritar de tanta distância que fica do original. Em certos momentos o filme parece descarregar “detalhes” dos dois livros a esmo, numa tentativa de criar uma história totalmente diferente com personagens que ‘lembram bem de longe’ os originais.

Mas Alice é bom…

Eu gostei do filme. Pode até parecer contraditório, mas a assinatura de Tim Burton consegue ‘salvar’ a produção de um desastre maior. Mia Wasikowska faz uma ótima Alice, sem contar com a brilhante atuação e caracterização de Bonham Carter como Rainha de Copas, além de Johnny Depp que dispensa comentários. O que fica é um enorme pesar, de uma adaptação que poderia ter um roteiro ‘maravilhoso’, digno do texto original, mas que tem muito ‘Disney’ e pouco chá de cogumelo.

Pra não dizer que não falei das flores, ficam questões a serem discutidas: ‘seria medo da Disney de errar, perder público infantil num roteiro complexo?’, ‘Será que ninguém avisou – meu, essa história esta uma @#@#$!-’. Seja de quem tenha sido o erro eu digo: “Cortem a cabeça!”.

Senti muita ‘vergonha alheia’ na cena ridícula da ‘dancinha’ do Chapeleiro. Outro fato quase inexplicável que merecia algumas cabeças rolando. O que deixa entender, após o seu Willy Wonka, é que Burton e Depp tem algum ‘fetiche’ sobre a figura de Michael Jackson. Será!? “Cortem a cabeça!”

Pra não dizer que não falei das flores novamente, essa música que deu o nome ao titulo do post, é de uma banda grunge chamada Terrorvison, uma daquelas “bandas de um único sucesso”, tocou no radio na década de 1990 e o videoclipe esteve nas paradas de sucesso da MTV. Além de ser uma passagem do filme de 1951, onde a Lagarta pergunta para Alice “Qual é exacticamente o seu problema?”

Vale conferir o texto do cineasta  Jorge Furtado “Alice Através do Espelho do Tempo“,  sobre os livros e as adaptações da Disney. O mesmo conhece muito a obra pois já traduziu o texto original para o português.

Algumas versões

Alice de 1903 – É no mínimo engraçado as crianças vestidas de cartas correndo atrás da Alice.

Alice de 1988 – Esta versão stop motion/live action surrealista é um pouco assustadora, dirigida pelo polonês  Jan Švankmajer.

#por Jonas Ribeiro#

Anúncios
 
3 Comentários

Publicado por em maio 11, 2010 em All Posts

 

Tags: , , , , ,

3 Respostas para “Alice, What’s the Matter?

  1. junho 28, 2010 at 21:56

    Acho que não seria só um “fetiche” sobre a figura do rei do pop, observe que o sorriso do Chapeleiro Depp com os dentes separados lembram também a Madonna, rs.
    E ressalvo ainda que a “Alice de Tim Burton” tem olheiras, característica inerente aos personagens de Burton (leia-se: o próprio mãos de tesoura ou os personagens de A noiva cadáver).
    Excelente resenha, primo.
    Congratulations.
    Beijos,

    P.S: Adoro a versão em desenho desse clássico. As borboletas com asas de pão de forma com manteiga fazendo “Butter- fly”!

     
  2. Gabriela Ziegler

    janeiro 22, 2011 at 7:23

    otimo texto critico! mto bom mesmo!

     
  3. Gabriela Ziegler

    janeiro 22, 2011 at 7:43

    *ah, pra mim o mais engracado na primeira vs do filme, de 1903, foi aquela imagem do Cheshire cat, um gato de verdade, q n tava nem ai pra Alice! alem do Coelho Branco com um travesseiro nas calcas, eh claro… as criancas vestidas de cartas tao mto fofinhas, hehehe

     

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: