‘Saberemos cada vez menos o que é um ser Humano’ – Livro das Previsões – prefácio de “As Intermitências da Morte”.
A literatura muitas vezes nos permite entrar em realidades muito diferentes da que vivemos, por outro lado pode nos mostrar o quanto o ser humano é igual em suas fragilidades, independente do local de nascimento ou qualquer outra variável que a vida (ou a morte) possa trazer.
Saramago em “As Intermitências da Morte” traz uma fábula que se inicia da seguinte forma ‘No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário as normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, …’. Um dos textos mais inspirados, e com certeza inspiradores, do mestre português, descreve um país fictício, onde a partir do primeiro dia de um ano qualquer, as pessoas param de morrer, por pior que fosse o estado de saúde, mesmo os acidentados, chegam ao limiar, mas não ultrapassam a ultima linha entre estar vivo e estar morto.
O que inicialmente poderia ser a dádiva da vida eterna, logo mostra-se um problema drástico, envolvendo toda a sociedade em dilemas organizacionais, religiosos, morais, éticos, entre outros efeitos. Afinal, o que fazer com as pessoas que não morrem, e continuam a envelhecer, ou aquelas que estão moribundas, praticamente sem vida, que podem até apodrecer, mas o fim para elas nunca chega.
Os desdobramentos do estado, da igreja, da midia e do povo, além dos poderes paralelos que surgem diante de tal acontecimento, são descritos de uma forma bem humorada, com o sarcasmo bem típico de Saramago. A metalinguagem, os velhos ditados, as reações em cadeia da sociedade são alguns pontos que aproximam ainda mais o leitor desta obra-prima da língua portuguesa.
(Caso você nunca leu o livro, sugiro que não leia este parágrafo) Com o decorrer dos dois primeiros terços do livro, a hipotética “figura da morte” é muito citada, como no senso comum, algo presente mas ao mesmo tempo desconhecido. A partir do momento em que ela aparece como uma personagem, e até com alguns aspectos e características bem humanas, a história muda de tom, com desfecho elegante e genial.
Já em “Maus – A História de um Sobrevivente”, quadrinhos de Art Spiegelman, retrata a passagem de seus pais, judeus poloneses, durante a segunda guerra, onde sobrevive foi um prêmio para poucos. Nesta obra a morte ronda a realidade de forma cruel e aponta para vários questionamentos. Até que ponto a sociedade pode chegar, quais os limites do sofrimento humano? E pior, quais os limites da crueldade de nossa espécie?
A “Não-Morte” remete as catástrofes das civilizações, como vemos literalmente hoje, cidades destruídas pela água, pelo barro e principalmente pela omissão do Estado diante do seu próprio povo, que neste ponto vive dois extremos, os solidários e os egoístas. A Morte latente nos aproxima de questões semelhantes, sempre levando a questão inicial, por mais evoluídos que estejamos tecnologicamente, em meio a tantas vidas perdidas de forma banal, aparentemente sabemos cada vez menos o que é um ser humano, ou melhor, será que estamos cada vez mais distante de ser?
Abaixo, entrevista com o mestre, cada frase tem sentido, faz refletir e merece um texto sobre cada palavra.
Para não dizer que não falei das flores, li pela segunda vez “As Intermitências da Morte” e admiração pela forma “Saramago” de contar histórias apenas aumenta. E a sua relação com “Maus” foi apenas que escolhi, quase aleatoriamente, ler um após o outro.
Para não dizer que não falei das flores ainda vale citar a série de TV “The Walking Dead”, baseado em graphic novel de mesmo nome, aborda um tema ‘noviade zero’ dos “mortos-vivos”, mas consegue manter o suspense e prender atenção. E porque não dizer que também mostra uma “não-morte” interessante e divertida.
Para não dizer que não falei das flores, após longa ausência (justificável) neste espaço, recomeço para que ele não morra. Nos próximos posts vou descrever a viagem que fiz e mostrar um pouco do meu ponto de vista dos lugares que visitei neste pequeno “hiato”.
por Jonas Ribeiro

