No terceiro dia de trabalho do ano, estava no transporte público, e olhei pela janela na descida da Avenida 9 de Julho. Carros paravam no sinal, motos riscavam o asfalto entre eles, pessoas apressadas atravessando a faixa. Todos parecem iguais a ontem e anteontem e nos outros ‘ontems’ de anos passados.
Em um mundo que por momentos parece estar à beira do caos, a pressa domina, a impaciência, o depois sempre parece mais importante do que o agora. E por que não anda? A inquietude de alguns olhares que procuram motivos onde a reposta é sempre a mesma , o trânsito, os carros, o governo, a chuva, os outros!
Um segundo olhar e começo a perceber que existem rostos onde encontro outras expressões, outras amplitudes. O sono, a tranqüilidade, a distância e em algumas conversas, aquelas bem ali na articulação do ônibus bi-articulado, palavras amistosas e leves sorrisos de histórias que não consigo distinguir, apenas um leve e agradável ruído de vozes.
De motores e passos, buzinas e vento, os sons se misturam, a luz é verde para o coletivo e “Tudo Caminha, e as horas passam de vagar num ônibus de linha”. Percebo que o organismo funciona, o veiculo para, o som da porta que abre, os degraus, o metálico som do anel da moça que bate no tubo de apoio, uns descem, outros sobem, um novo chiar, a porta se fecha. Será que isso tudo pode ser música?
Nos prédios que passam muitos já se acomodam em suas poltronas, ligam seus computadores, outros tomam o café de costume, alguns já lidam com água e sabão, o esfregão, a graxa e os papéis. O sinal do elevador, a ronco da máquina que corta, o bichos que despertam na petshop, os pães despejados no cesto, a borrifada matinal nas flores expostas, a porta de metal que levanta. Será que isso tudo pode ser música?
Pra não dizer que não falei das flores, “Brasília 5:31” tem uma versão acústica que me lembra muito o lado psicodélico dos Beatles, com a guitarra mais que especial de Dado Villa-Lobos entoando efeitos com um toque ‘transcendental’. Esta canção reflete a mim como é possível ‘ver’ música em todo lugar, como pode ser belo imaginar o despertar de uma metrópole, como “tudo caminha”.
Pra não dizer que não falei das flores novamente, existem muitos estudos sobre a música presente nos sons do cotidiano. Na faculdade, o professor de som Marcelo Caíres nos apresentou o livro “Por uma Escuta Nômade: A Musica dos sons da Rua” de Fátima Carneiro dos Santos, que aborda o tema e dedica vários capítulos citando pensadores e estudioso do assunto. Como exemplo, a cantora Björk explorou muito bem esses sons nas musicas do filme “Dançando no Escuro”, presentes no trecho com a música “Cvalda”, mais sobre isso apenas na parte 2.

Stephanie Kohn
janeiro 13, 2010 at 13:29
E nessa correria e era do “depois ser mais importante que o agora” já faz muito tempo que não te vejo. Não posso negar que às vezes a tal da tecnologia ajuda. Esse blog me colocou mais próxima de você e por isso agradeço imensamente os tempos ultra modernos… pelo menos temos isso, né?
Beijos meu querido amigo!
jonasribeiro78
janeiro 13, 2010 at 15:19
A gente sempre acha uma forma de estarmos próximos de quem a gente gosta.
Não se preocupe, a nossa amizade sempre está no agora.
Mesmo que as vezes seja apenas em nossos corações.