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Arquivo do mês: janeiro 2010

Esta é a Minha Ilha, é o Reino que Governo e Onde ‘Eles’ Vivem

Fora de controle, as peças não se encaixam, nada combina e todas as emoções transbordam para o caos, a fatalidade e a incompreensão. Então a única saída é fugir de tudo isso, e navegar a deriva num mar desconhecido, em busca de um porto qualquer. Em meio a tempestade de águas revoltas encontra-se uma ilha.

Neste pedaço de terra ‘eles’ vivem, em eterno conflito, com todas as suas peculiaridades, que num primeiro momento assustam, mas apesar de suas formas horripilantes, percebe-se algo familiar em todos eles. Uns aparentemente estão por perto o tempo inteiro, outros mal nota-se a presença, mesmo assim estão lá, marcando de alguma forma a existência. Esta ilha agora tem um rei.

Constrói-se uma fortaleza, para que só o desejável entre, mas isso é impossível. Ter o controle de quem entra ou quem sai é apenas um desejo utópico, distante da realidade. Logos ‘eles’, que aparentemente estavam calmos e em harmonia com a chegada do rei, expõem suas faces, o falso controle cai facilmente, neste reino ‘eles’ estão fora de controle, é difícil governar a própria ilha.

“Onde Vivem os Monstros” (Where the Wild Things Are, 2009), dirigido por Spike Jonze, é adaptação do livro com mesmo nome de Maurice Sendak. Quando vamos ao cinema para assistir um filme de Jonze, esperamos no mínimo algo inusitado, um olhar diferente, fotografia, montagem, tudo tem um trabalho personalizado e distante do comum.

Não é fácil gostar deste filme, porque as metáforas escondidas na história do garoto Max e os Monstros que dividem a tela com ele são sutis e dificilmente percebidas por mentes um pouco distraídas. A trilha sonora é delicadamente deliciosa, e dá suporte as viagens de Sendak e Jonze. Não sei quanto o filme é fiel ao livro, mas sem dúvida esta película não é nada infantil.

Peço ‘licença poética’ para definir e resumir este filme pelo meu ponto de vista: Todo homem é uma ilha, onde reina um menino cheio de histórias fantásticas, ele é a essência pura que reside dentro de cada indivíduo. Mas nesta ilha também habitam os monstros, oriundos de nossas fraquezas, são as faces tristes do lado obscuro também presente dentro de todos nós.

Pra não dizer que não falei das flores, Spike Jonze é da ‘turma’ de Michel Gondry e Charlie Kaufman, passou a década de 1990 dirigindo videoclipes para R.E.M, Björk, Sonic Youth, Daft Punk, The Breeders, Weezer entre outros. Estes vídeos marcaram época, ganharam prêmios e abriram o mercado do cinema para este diretor. Antes de “Onde Vivem os Monstros”, dois filmes que dirigiu, que chamam atenção pelos excelentes roteiros de Kaufman são “Quero ser John Malkovich” (Being John Malkovich, 1999) e “Adaptação” (Adaptation, 2002).

Seguem três momentos de pura genialidade de Jonze, “It’s so Quiet” com a sincronia em slow motion de Björk, o bem-humorado e já clássico “Sabotage” dos Beastie Boys e por último, mas não menos importante, “CannonBall” música de maior sucesso do The Breeders, onde é importante reparar as diferentes tomadas e ângulos inusitados como o rosto debaixo d’água e a câmera que corre com a bola.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em janeiro 30, 2010 em All Posts

 

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Time’s A Wasting

“I wear the black for the poor and the beaten down, / Livin’ in the hopeless, hungry side of town, / I wear it for the prisoner who has long paid for his crime, / But is there because he’s a victim of the times” (“Eu me visto de preto pelos pobres e oprimidos/ Que vivem no lado faminto e sem esperanças da cidade / Eu me visto assim pelo prisioneiro que há muito pagou por seu crime / Mas está ali pois é uma vítima dos tempos”). Trecho de “Man In Black” escrita em 1971.

Um homem trilha sua história cheia de problemas, desde a infância as coisas são difíceis para ele. Com o passar do tempo sente que dentro de si existe algo extraordinário, um dom que o difere dos comuns, ele parte em busca de seu destino, mesmo com muitos sendo contrários a sua luta. Logo, esse seu dom lhe dá notoriedade e ele passa a ser conhecido e amado por (quase) todos. Mas o que poderia ser um final feliz é justamente o ponto de partida da sua trajetória de muitos altos e baixos, perseguições e equívocos que o levam até o fundo do poço e para os braços da morte eminente. Até que um amor incondicional o traz de volta a vida, lhe dá a redenção, encontrando as forças em uma fé, o predestinado ressuscita e recebe sua absolvição.

Jesus, Homem-Aranha, Ray Charles, Karate Kid, etc. A trilha do herói, já academicamente analisada por diversos estudiosos de roteiros, é a receita para incontáveis histórias descritas pela humanidade. A vida de Johnny Cash se encaixa perfeitamente nela. Mesmo cometendo todos os abusos comuns para um ‘rock star’, envolvendo-se com drogas, ‘esquecendo’ da esposa/família durante as turnês, seu amor por June Carter e sua genialidade para música o absolvem de qualquer ‘tropeço’ cometido em vida.

Muito antes de Mano Brown nascer, Johnny Cash já versava os temidos e nem sempre justiçados presidiários. “Numa manhã enquanto dava voltas /Eu tomei uma dose de cocaína e matei minha mulher / Eu fui para casa e fui para cama / Guardei aquela amada 44 embaixo da minha cabeça” só como exemplo um trecho da famosa “Cocaíne Blues”. Foi justamente cantando musicas descrevendo passagens destes ‘fora-da-lei’ que ele ressurgiu para o sucesso no final dos anos 1960, mas afinal, não é olhando para os excluídos que o herói faz a diferença?

Johnny, que surgiu para o mundo da musica na metade do anos 1950, foi viciado em anfetaminas, foi preso algumas vezes, porém nunca chegou a ficar encarcerado por muito tempo. Vestia-se totalmente de preto, e a sua lista de amigos é no mínimo de respeito. No inicio de carreira dividia os palcos com Elvis e Jerry Lee Lewis, nos final dos anos 1960 ficou muito amigo de um tal Bob Dylan, até Ozzy Osbourne trocou algumas ‘idéias’ com ele nos anos 1980. A lista de influenciados pelo seu ‘country rock gospel bandido’ vai de U2 a Norah Jones e ele mesmo teve seu ultimo grande sucesso gravando “Hurt” composta por Trent Reznor do Nine Inch Nails.

O filme

“Johnny & June” (Walk The Line, 2005) é a cinebiografia do nosso herói e cantor country americano, com direção e roteiro de James Mangold (mesmo roteirista e diretor de “Garota, Interrompida”, 1999), estrelada por Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon (atuação que lhe rendeu o merecido Oscar de melhor atriz). A dupla incorpora Cash e Carter de maneira sublime, e para minha grata surpresa,os atores cantam todas as musicas, sendo a voz de Joaquin ainda mais grave do que a original de Johnny, dando uma nova ‘roupagem’ para as canções.

O amor ‘latente’ cultivado por anos de proximidade entre o casal é muito bem explorado e torna-se o fio condutor de toda a trama. Sentimento este que depois de mais uma década pode ser declarado e consumido em público. Se não fosse baseado em fatos reais, poderíamos dizer que o filme é um enorme emaranhado de chavões com estrelas viciadas, casamentos desfeitos, auto-destruição do herói por causa de uma culpa injusta, e um final romântico onde os mocinhos ‘viveram felizes para sempre’. Em 2003, depois de mais de trinta anos de casamento, Cash morreu quatro meses após a sua amada Carter ter falecido.

Pra não dizer que não falei das flores, muitos dizem que se o blues é a mãe do rock e o pai com certeza é o country. O começo da trajetória musical de Johnny Cash demonstra como o rockabilly se misturava facilmente com a musica dele. Considerado por muitos o maior representante do estilo, foi rejeitado pela indústria da música conuntry nos anos 1990, mesmo período em que ele ressurgiu novamente (como uma Fênix de violões) emplacando sucessos e ganhando até Grammy.

Pra não dizer que não falei das flores novamente, faz dez dias que permeia em minha cabeça escrever este texto sobre o filme e o cantor, coincidência ou não, hoje vi um cara com uma camiseta com a famosa foto de Cash mostrando o dedo para as rádios e gravadoras country americanas.

Obs.: Infelizmente não encontrei no youtube a passagem em que Johnny pede June em casamento no palco.

Obs.2: A foto de abertura, na minha humilde opinião, é uma das mais belas da história do cinema.

#por Jonas Ribeiro#

 
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Publicado por em janeiro 18, 2010 em All Posts, Coisas de Filme, Notas Musicais

 

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Em Todo Lugar – parte 1

No terceiro dia de trabalho do ano, estava no transporte público, e olhei pela janela na descida da Avenida 9 de Julho. Carros paravam no sinal, motos riscavam o asfalto entre eles, pessoas apressadas atravessando a faixa. Todos parecem iguais a ontem e anteontem e nos outros ‘ontems’ de anos passados.

Em um mundo que por momentos parece estar à beira do caos, a pressa domina, a impaciência, o depois sempre parece mais importante do que o agora. E por que não anda? A inquietude de alguns olhares que procuram motivos onde a reposta é sempre a mesma , o trânsito, os carros, o governo, a chuva, os outros!

Um segundo olhar e começo a perceber que existem rostos onde encontro outras expressões, outras amplitudes. O sono, a tranqüilidade, a distância e em algumas conversas, aquelas bem ali na articulação do ônibus bi-articulado, palavras amistosas e leves sorrisos de histórias que não consigo distinguir, apenas um leve e agradável ruído de vozes.

De motores e passos, buzinas e vento, os sons se misturam, a luz é verde para o coletivo e “Tudo Caminha, e as horas passam de vagar num ônibus de linha”. Percebo que o organismo funciona, o veiculo para, o som da porta que abre, os degraus, o metálico som do anel da moça que bate no tubo de apoio, uns descem, outros sobem, um novo chiar, a porta se fecha. Será que isso tudo pode ser música?

Nos prédios que passam muitos já se acomodam em suas poltronas, ligam seus computadores, outros tomam o café de costume, alguns já lidam com água e sabão, o esfregão, a graxa e os papéis. O sinal do elevador, a ronco da máquina que corta, o bichos que despertam na petshop, os pães despejados no cesto, a borrifada matinal nas flores expostas, a porta de metal que levanta. Será que isso tudo pode ser música?

Pra não dizer que não falei das flores, “Brasília 5:31” tem uma versão acústica que me lembra muito o lado psicodélico dos Beatles, com a guitarra mais que especial de Dado Villa-Lobos entoando efeitos com um toque ‘transcendental’. Esta canção reflete a mim como é possível ‘ver’ música em todo lugar, como pode ser belo imaginar o despertar de uma metrópole, como “tudo caminha”.

Pra não dizer que não falei das flores novamente, existem muitos estudos sobre a música presente nos sons do cotidiano. Na faculdade, o professor de som Marcelo Caíres nos apresentou o livro “Por uma Escuta Nômade: A Musica dos sons da Rua” de Fátima Carneiro dos Santos, que aborda o tema e dedica vários capítulos citando pensadores e estudioso do assunto. Como exemplo, a cantora Björk explorou muito bem esses sons nas musicas do filme “Dançando no Escuro”, presentes no trecho com a música “Cvalda”, mais sobre isso apenas na parte 2.

 
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Publicado por em janeiro 7, 2010 em All Posts, Notas Musicais

 

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